História das marcas: Georges Duboeuf

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Considerado o rei de Beaujolais, Georges Duboeuf dedicou sua vida a promover a região como um todo pelo mundo.

Mesmo com o DNA da nobre Borgonha, foi na vizinha Beaujolais que Georges Duboeuf fez fama no mundo do vinho, seja pela afiada visão para fazer vinhos com boa relação qualidade e preço ou pela criação da campanha do Beaujolais Noveau.

Nascido no sul da Borgonha, em Mâcon, onde sua família cultivava um vinhedo há mais de 400 anos no vilarejo de Pouilly-Fuissé, Georges Duboeuf aprendeu logo na adolescência a arte de se vender vinhos. Já que seu irmão, Roger Duboeuf, cuidava da produção, Georges saía de bicicleta para vender o vinho pelas redondezas. Assim fez chegar umas amostras ao estrelado chef Paul Blanc (uma estrela Michelin) que comprou os vinhos e impressionado com a qualidade, falou que se tivesse um tinto do mesmo padrão também o compraria. Vale lembrar que na época, final da década de 40, pós 2ª Guerra, a qualidade média dos vinhos era baixa. Duboeuf logo entendeu que a importância em se ouvir o mercado e focar na qualidade dos vinhos.

No início de sua fase adulta Georges Duboeuf foi contratado pelo russo que vivia nos Estados Unidos, Alexis Lichine, grande conhecedor em vinhos, escritor, comerciante e então recém proprietário de dois châteaux em Bordeaux (proprietário de Prieuré-Lichine e sócio em Lascombes, ambos listados como cru classé em 1855) para trabalhar na seleção de vinhos em outras regiões francesas e engarrafar sob marca de Lichine. Alguns anos depois, quando o russo decidiu concentrar esforços em Bordeaux, Georges Duboeuf tinha ótima relação tanto com produtores de uvas quanto com compradores de lojas e restaurantes. Este foi o principal ativo para Duboeuf fundar sua vinícola no vilarejo de Romanèche-Thorins, em 1964.

Nos anos 70 e já com seu negócio estabelecido, Georges Duboeuf viu o potencial no costume popularizado nos anos 50, onde bistrôs parisienses disputavam para colocar os vinhos feitos no ano o mais rápido possível. No hemisfério norte, a colheita é feita no segundo semestre (no outono) e Beaujolais conciliava a vantagem que sua uva típica, a Gamay, não tem o ciclo de amadurecimento muito longo e o vinho que resultava se mostrava fácil e agradável de se beber quando jovens, ao contrário, por exemplo, dos tânicos Bordeaux, que pedem muitos meses ou anos de estágio em barricas ou nas garrafas para se tornarem abordáveis. Assim, conforme a lei francesa autorizava, os vinhos do ano poderiam ser comercializados a partir de meados de novembro e o Beaujolais Noveau (o vinho jovem de Beaujolais) adotou a data da terceira quinta-feira de novembro como, literalmente, a data de largada. Isto porque realmente formava-se uma verdadeira corrida para que à 00:01 os restaurantes estivessem devidamente abastecidos com o novo vinho.

Georges Duboeuf transformou este costume em um grande evento, de escala global, reunindo chefs estrelados, entre eles os tri-estrelados da região Paul Bocuse e Alain Chapel, personalidades, atores e atrizes. O show estava armado as principais metrópoles do mundo faziam parte da campanha do Beaujolais Noveau. Os resultados foram elevados na mesma proporção e no final da década de 80 cerca 60% de todo o vinho produzido na região era destinado ao Noveau. Ainda que hoje o fenômeno não tenha a mesma escala, ainda hoje há certa expectativa e festividades em torno da chegada do Beaujolais Noveau.

 Quando este movimento começou a perder fôlego, Georges Duboeuf novamente foi visionário. Preocupado com comentários sobre a queda da qualidade dos vinhos de Beaujolais, Duboeuf observou que a revolução agora seria qualitativa e se dirigiu aos vinhedos. O conceito borgonhês de “cru”, ou vinhedos classificados, seria o foco dos trabalhos. Coincidência ou não, a sede da vinícola de Georges Duboeuf fica no vilarejo de Romanèche-Thorins e sua paisagem é marcada por um moinho de vento. Este moinho, por sua vez, empresta o nome ao mais bem reputado cru de Beaujolais, chamado Moulin à Vent. Junto a ele estão mais nove crus: Brouilly, Côte de Brouilly, Chénas, Chiroubles, Fleurie, Julienas, Morgon, Régnié e Saint Amour. A vinícola de Georges Duboeuf é também uma referência para os viajantes pois reúne um verdadeiro parque temático do vinho onde é possível até mesmo fazer um passeio em realidade aumentada sobrevoando os vinhedos da região.

Como parte do projeto de expansão, Georges Duboeuf também possui vinhedos e faz vinhos na parte sul da Borgonha (Mâconnais) e no sul da França, na região do Languedoc, com linhas que privilegiam a boa relação qualidade-preço. 

Uma vida dedicada à cultura do vinho que ele tanto amava, George Duboeuf se foi no dia 4 de janeiro deste ano, aos 86 anos, após um AVC em Romanèche-Thorins, próximo à Lyon, na França. O mundo perdeu uma figura icônica, que conseguiu colocar toda uma região em evidência no mundo todo. Embora não gostasse das alcunhas que o tornaram famoso, entre elas as que o chamavam de “rei” ou o “papa” de Beaujolais, George Duboeuf nos deixa um legado de conquistas e avanços para todos aqueles que, como nós, amamos o vinho e seus significados.  

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